A pesquisadora canadense Linda Hutcheon afirma que a auto-reflexividade formal do pós-modernismo torna a paródia uma modalidade privilegiada, pois parece oferecer um lugar onde o artista pode falar para e a partir de um determinado discurso, mas sem ser totalmente recuperado por ele. Sem a pretensão de negar a posição privilegiada deste recurso artístico que alcançou a paródia no contexto contemporâneo, devemos reconhecer também que outros modos de apropriação estilística como o pastiche, a citação, a alusão, a sátira ou a farsa quando se utilizam de estratégia irônica, assim como a paródia, podem também refletir o sentido de contestação aos sistemas narrativos centralizados, totalizados, hierarquizados e fechados sem aspirar à sua destruição. (MORAIS, 2003)
A bilbioteca é a história viva do Livro e seus leitores
Biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura - RJ
terça-feira, 25 de setembro de 2012
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
ROMANCE HISTÓRICO E IDENTIDADE NACIONAL
O romance histórico de origem romântica é divulgador e confirmador do ideal nacionalista que se espalha pelo ocidente. No período romântico, o discurso de nação assume posição privilegiada no campo da narrativa ficcional e isto se dá pela apropriação do discurso da história. As análises empreendidas em meus trabalhos de pesquisa mostrarão que, para os escritores modernistas de 1922, o passado – o discurso de nação romântico, principalmente – é algo que precisa ser ultrapassado ou sobreposto por um novo discurso, enquanto que para os pós-modernistas – considerados aqui aqueles publicados a partir de 1980 – o presente só pode ser avaliado ou pensado, a partir de fragmentos do passado. A subversão do texto antigo se dá mais no sentido de propor sua reflexão e relativização, quando o transcontextualiza, do que no sentido de sua desautorização. A intertextualidade, tendo em vista as suas cinco formas apresentadas por Gerárd Genett, nos parece, é procedimento recorrente nos três períodos citados, porém transforma-se para responder a expectativas e ideologias diversas. De acordo com o que vemos em grande parte da produção de ficção histórica pós-moderna, repensar o discurso histórico a partir de proposições críticas feitas através, principalmente, da citação, da paródia e da ironia a distancia dos romances históricos românticos e isto será demonstrado pelo posicionamento dos autores, implícito ou real, diante do material histórico. Os romances de Ana Miranda vêm reafirmar que todo romance histórico revela o posicionamento do autor sobre o conceito de história e, mais do que isso, revela também o grau de intimidade deste autor com os elementos ficcionais. Os recursos ficcionais utilizados nos romances da autora cearense respondem bem tanto ao caráter inventivo quanto ao histórico. Há, na revisitação da memória e do momento literário de cada poeta, uma busca por refigurar e refletir sobre discursos de nação, ou a ausência deles, do passado. No romance Boca do inferno, Gregório de Matos, no século XVII, revolta-se com as atitudes subservientes do Brasil em relação a Portugal, vivendo uma relação de amor e ódio com as duas pátrias, mas é um sabiá em liberdade. Enquanto que em Dias e dias, Gonçalves Dias, no século XIX, luta pela afirmação da identidade brasileira diante da pátria-mãe. Para isso, é preciso superar a perda do paternalismo colonial e suportar as limitações da gaiola nacionalista. De outro modo, em A última quimera, as reflexões sobre o canônico revelam uma crítica ao sistema histórico-literário brasileiro. Em franco reconhecimento da autonomia da literatura e da comunidade nacional brasileiras que discute, internamente, seu processo de formação.
Palavras-chave: Romance histórico. Discursos de nação. Ironia e paródia. Ana Miranda
sábado, 28 de julho de 2012
FICÇÃO HISTÓRICA E DIDATISMO
PROJETO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIAProf. ª Dr. ª Eunice de MoraisEMENTA: Pretende-se observar e discutir sobre o caráter didático do gênero Ficção Histórica desde a sua origem e as modificações do mesmo no curso da história da literatura. Desenvolver pesquisa sobre a utilização da Ficção Histórica como ferramenta no processo de ensino-aprendizagem das disciplinas de Literatura e de História, no Ensino fundamental e Médio. AGOSTO 16 – Confirmação de inscrições, apresentação do programa; introdução. 23 – A forma clássica do romance histórico; as condições sócio-históricas do surgimento do romance histórico; Walter Scott e A. Manzoni. (LUKÁCS, 33-114) 30 – O didatismo em Ivanhoé (1819), de Wlater Scott
terça-feira, 24 de julho de 2012
Projeto de extensão UEPG: FICÇÃO HISTÓRICA E DIDATISMO
PROJETO DE EXTENSÃO UEPG
FICÇÃO HISTÓRICA E DIDATISMO
INSCRIÇÕES: de 16/07 a 03/08
- ENVIAR CURRÍCULO PARA: emorais@uepg.br
- O projeto destina-se a professores e alunos da rede pública de ensino, com interesse nas áreas de Literatura e História, e em discussões sobre a utilização da ficção histórica como recurso didático no ensino fundamental e médio. Abre 20 vagas.
- Coordenação: Prof.ª Dr.ª Eunice de Morais (DELET – UEPG).
- DURAÇÃO DO CURSO: 16/08/2012 – 05/07/2013 (60 horas).
- DIA/HORÁRIO: QUINTA-FEIRA – das 14:00 às 16:00 h
- LOCAL: CAMPUS CENTRAL DA UEPG (PONTA GROSSA)
- Certificado: participação mínima de 75% da carga horária.
COM O APOIO DO PRO-REITORIA DE EXTENSÃO E ASSUNTOS CULTURAIS – PROEX
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
quinta-feira, 14 de abril de 2011
A HISTÓRIA E OS MEIOS ACOMODADOS
Eunice de Morais.
O sábio tem domínio da influência
Celeste; e na potência da vontade.
E se o fim não alcança desejado
é por não ser o meio acomodado.
Bento Teixeira
Observar a produção do romance histórico contemporâneo pode ser surpreendente tanto pelos novíssimos modos e estratégias da construção discursiva quanto pela tentativa de manutenção ou de recuperação de recursos narrativos do romance histórico do século XIX.
O romance O primeiro brasileiro (1995), de Gilberto Vilar, merece maior atenção e análise por dois motivos: a importante revisão histórica que faz sobre a figura de Bento Teixeira e sobre a Inquisição no Brasil, em seu primeiro século de colonização; e pelo modo como reapresenta este assunto na forma de biografia romanceada, utilizando-se de recursos narrativos como paratextos, citações e apropriações estilísticas os quais ora recuperam ideais do Romance Histórico Romântico[1], ora tentam uma aproximação com recursos e estratégias discursivas que têm sido freqüentemente utilizados por um tipo de ficção histórica denominada pós-moderna.
O romance trata da vida de uma personagem da história da literatura brasileira e acaba por fazer críticas mais às condições políticas e sociais em que vivia a população do que ao modo como a historiografia apresenta esta personagem. A falta de revisão historiográfica sobre o tema é lembrada em notas finais e a narrativa ficcional parece confirmar seu caráter revisionista quando, mais uma vez, apresenta Bento Teixeira como o primeiro poeta brasileiro a ter sua obra publicada em Portugal, reafirmando que a importância desta obra, a Prosopopéia, de 1601, para a literatura brasileira, permanece justificada por ter sido a primeira obra produzida no Brasil por um poeta brasileiro. Enfim, não há revisitação histórica ou um olhar questionador sobre o histórico. Esse romance, que se fosse romântico não ensaiaria uma focalização narrativa variável, também não é pós-moderno por faltar-lhe o caráter reflexivo e questionador sobre a construção da história.
Observamos desde já que esta ambigüidade ou dicotomia parece ser prejudicial à realização da obra enquanto construção romanesca, já que a maior preocupação do autor relaciona-se com a fidelidade à pesquisa documental, como procuraremos demonstrar adiante. Assim, o que propomos como foco de análise é a relação entre os recursos narrativos utilizados, o modo de construção do romance e a percepção histórica demonstrada pela voz autoral, observando a eficiência e o significado da utilização destes instrumentos.
[1] O Romance Histórico Romântico será identificado aqui com a produção de Walter Scott e definido por George Luckács em La novela histórica (1971), lançado em 1937.
O fragmento acima é parte do artigo escrito pela prof.ª Eunice de Morais, publicado na obra Ficção histórica: teoria e crítica, organizado pela prof. Marilene Weinhardt (UFPR) e publicado pela Editora UEPG.
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
domingo, 30 de setembro de 2007
Passado e Memória em Dias e Dias
Pensar a construção narrativa dos romances de Ana Miranda com um olho no passado é meio caminho para uma viagem agradável. a escritora utiliza-se com muita precisão de investigações relativas ao passado sem necessariamente mergulhar na historiografia tradicional. A desculpa para se apresentar determinada trama passa dos limites da construção narrativa para uma dimensão interdiscursiva que projeta o leitor para a própria construção da trama.
Em Dias e Dias, Ana Miranda nos leva para um espaço privilegiado, uma espécie de antesala em que a urdudura republicana parece instalar suas garras precipitando a decadência da monarquia nacional. Por trás do amor de Feliciana toda uma dedicação que vai além do compromisso das missivas e de revelações que adocicam o caminho literário pavimentado pelo romantismo heróico de um povo carente de lideranças populares...
sábado, 15 de setembro de 2007
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
Considerações sobre o romance Boca do Inferno
(Este texto é parte integrante da dissertação de mestrado, defendida em 2003, na UFPR, por Eunice de Morais.)
A personagem Gregório de Matos é importante no romance Boca do Inferno(1989), de Ana Miranda, enquanto participante de um momento histórico e enquanto figura literária. O poeta não é causa nem conseqüência do momento histórico e literário no Brasil, mas é parte dele, age e reage de acordo com crenças e costumes da época e de sua classe social, porém com ideais que o diferenciam entre muitos artistas do final do século XVII. Isto fica claro quando o narrador o descreve:
"O mundo sempre estivera cheio de poetas como ele: Afonso Eanes de Coton (...); O galego Pero da Ponte (...); o clérigo Martim Moxa (...); o fidalgo Tomás de Noronha (...); Francisco Manuel de Melo (...). Gregório de Matos não estava entre os piores. Era até compreensível que ele fosse assim. Os poeta como ele tinham sido amados pelo povo, não apenas pelo que escreviam, mas pelos pecados que cometiam. Com a aura divina da poesia, não haviam deixado de ser homens comuns." (p. 205).
Narrar a vida de Gregório de Matos a partir do crime do alcaide Francisco Teles traz ao romance duas portas de entrada: a maturidade do poeta tanto como indivíduo social quanto como artista e as transformações e perseguições políticas em decorrência do crime. Assim, o crime é um momento decisivo historicamente para a vida do poeta ficcionalizado e para as mudanças políticas no país. A importância do romance, no entanto está nos questionamentos sociais e políticos que, apesar de antigos, não envelhecem neste país: os cânones literários e históricos continuam sendo escolhidos pelos críticos da literatura e pelos escritores da história, a política continua corrupta, os brasileiros dominados por elementos culturais externos; por outro lado há a derrocada da idéia de sermos um povo pacífico desde a origem.
A representação do período histórico narrado (04 de junho de 1683 até, presumivelmente, junho de 1684) se dá muito mais pelo espírito moralizador imposto pelos colonizadores europeus do que pelas descrições figurativas da geografia ou dos fatos históricos paralelos ao fato narrado. A descrição da cidade da Bahia e dos personagens se dá mais fortemente pelo caráter moral (disputa entre o bem e o mal) do que por descrições cenográficas, ou seja, a reprodução mimética serve como apoio para a apresentação dos ideais políticos, sociais, religiosos e literários que se concentram na figura de Gregório de Matos, “Boca do Inferno não era ele, era a cidade. Era a colônia”. (p.232)
"(...) Mas a colônia andava atrelada a Portugal. As moedas e as riquezas não ficavam no Brasil. A economia marchava conforme as circunstâncias que viessem a atender às necessidades do regime fazendário da metrópole (...) Os valores das mercadorias na colônia eram miseráveis. Em Portugal altíssimos. (...)."
"Os brasileiros são bestas e estarão a trabalhar toda a vida por manter maganos de Portugal." (p. 293).
Assim, o que paira sobre a obra é exatamente a disputa entre o ser e o dever ser dos indivíduos que viveram ao lado do poeta. O ser, em Boca do Inferno, é o ser barroco por excelência.
"De noite, aqueles mesmos freqüentadores de missas andavam em direção aos calundus e feitiços. (...). Quando se confessavam na igreja, escondiam isso dos padres apesar de não ser raro ver-se um sacerdote em tais cerimônias." (p.14).
Este parece ser o grande mérito da obra: fazer a história de Gregório de Matos ao estilo de sua época e de sua obra poética sem se opor às tendências romanescas do presente. O mesmo poeta que critica a submissão dos brasileiros em relação a Portugal, não quer abandonar a Bahia “se eu tiver de morrer, que seja aqui mesmo.” (p.232).
A vida de Gregório de Matos, no romance, tem como centro a cidade da Bahia, que é uma espécie de entidade moral que surge como espaço histórico e ganha personalidade pelas descrições satíricas do poeta. A cidade é incorporadora das decepções e protestos de Gregório de Matos em relação ao contexto político e social da época. O fato principal é o crime do Alcaide Francisco Teles, de modo que o protagonista, centro das narrativas biográficas históricas, é no romance um dos centros da narrativa.
"Gregório de Matos estava repleto de dúvidas. Ser formado em cânones e habilitado de genere para a leitura de bacharel não o satisfazia. Jovem, entregara-se à poesia, cheio de sonhos clássicos; porém, com o tempo, passara a escrever apenas por um sentimento compulsivo. (...) As poesias líricas que escrevia lhe pareciam muito abaixo das de Gongora y Argote. E inúteis."(p. 204).
Gregório de Matos aparece na obra como escritor e advogado rebelde e seus pensamentos servem, muitas vezes, de assunto para o narrador que quase sempre adota o estilo cruel do poeta em ironias contra a cidade, as pessoas influentes, as mulheres, os escravos, etc.
A personagem Gregório de Matos é importante no romance Boca do Inferno(1989), de Ana Miranda, enquanto participante de um momento histórico e enquanto figura literária. O poeta não é causa nem conseqüência do momento histórico e literário no Brasil, mas é parte dele, age e reage de acordo com crenças e costumes da época e de sua classe social, porém com ideais que o diferenciam entre muitos artistas do final do século XVII. Isto fica claro quando o narrador o descreve:
"O mundo sempre estivera cheio de poetas como ele: Afonso Eanes de Coton (...); O galego Pero da Ponte (...); o clérigo Martim Moxa (...); o fidalgo Tomás de Noronha (...); Francisco Manuel de Melo (...). Gregório de Matos não estava entre os piores. Era até compreensível que ele fosse assim. Os poeta como ele tinham sido amados pelo povo, não apenas pelo que escreviam, mas pelos pecados que cometiam. Com a aura divina da poesia, não haviam deixado de ser homens comuns." (p. 205).
Narrar a vida de Gregório de Matos a partir do crime do alcaide Francisco Teles traz ao romance duas portas de entrada: a maturidade do poeta tanto como indivíduo social quanto como artista e as transformações e perseguições políticas em decorrência do crime. Assim, o crime é um momento decisivo historicamente para a vida do poeta ficcionalizado e para as mudanças políticas no país. A importância do romance, no entanto está nos questionamentos sociais e políticos que, apesar de antigos, não envelhecem neste país: os cânones literários e históricos continuam sendo escolhidos pelos críticos da literatura e pelos escritores da história, a política continua corrupta, os brasileiros dominados por elementos culturais externos; por outro lado há a derrocada da idéia de sermos um povo pacífico desde a origem.
A representação do período histórico narrado (04 de junho de 1683 até, presumivelmente, junho de 1684) se dá muito mais pelo espírito moralizador imposto pelos colonizadores europeus do que pelas descrições figurativas da geografia ou dos fatos históricos paralelos ao fato narrado. A descrição da cidade da Bahia e dos personagens se dá mais fortemente pelo caráter moral (disputa entre o bem e o mal) do que por descrições cenográficas, ou seja, a reprodução mimética serve como apoio para a apresentação dos ideais políticos, sociais, religiosos e literários que se concentram na figura de Gregório de Matos, “Boca do Inferno não era ele, era a cidade. Era a colônia”. (p.232)
"(...) Mas a colônia andava atrelada a Portugal. As moedas e as riquezas não ficavam no Brasil. A economia marchava conforme as circunstâncias que viessem a atender às necessidades do regime fazendário da metrópole (...) Os valores das mercadorias na colônia eram miseráveis. Em Portugal altíssimos. (...)."
"Os brasileiros são bestas e estarão a trabalhar toda a vida por manter maganos de Portugal." (p. 293).
Assim, o que paira sobre a obra é exatamente a disputa entre o ser e o dever ser dos indivíduos que viveram ao lado do poeta. O ser, em Boca do Inferno, é o ser barroco por excelência.
"De noite, aqueles mesmos freqüentadores de missas andavam em direção aos calundus e feitiços. (...). Quando se confessavam na igreja, escondiam isso dos padres apesar de não ser raro ver-se um sacerdote em tais cerimônias." (p.14).
Este parece ser o grande mérito da obra: fazer a história de Gregório de Matos ao estilo de sua época e de sua obra poética sem se opor às tendências romanescas do presente. O mesmo poeta que critica a submissão dos brasileiros em relação a Portugal, não quer abandonar a Bahia “se eu tiver de morrer, que seja aqui mesmo.” (p.232).
A vida de Gregório de Matos, no romance, tem como centro a cidade da Bahia, que é uma espécie de entidade moral que surge como espaço histórico e ganha personalidade pelas descrições satíricas do poeta. A cidade é incorporadora das decepções e protestos de Gregório de Matos em relação ao contexto político e social da época. O fato principal é o crime do Alcaide Francisco Teles, de modo que o protagonista, centro das narrativas biográficas históricas, é no romance um dos centros da narrativa.
"Gregório de Matos estava repleto de dúvidas. Ser formado em cânones e habilitado de genere para a leitura de bacharel não o satisfazia. Jovem, entregara-se à poesia, cheio de sonhos clássicos; porém, com o tempo, passara a escrever apenas por um sentimento compulsivo. (...) As poesias líricas que escrevia lhe pareciam muito abaixo das de Gongora y Argote. E inúteis."(p. 204).
Gregório de Matos aparece na obra como escritor e advogado rebelde e seus pensamentos servem, muitas vezes, de assunto para o narrador que quase sempre adota o estilo cruel do poeta em ironias contra a cidade, as pessoas influentes, as mulheres, os escravos, etc.
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
Ana Miranda e o romace histórico
Boa parte dos romances da escritora Ana Miranda revela o crescente interesse pela temática histórica na ficção contemporânea. Além de Boca do Inferno (1989), nos romances O retrato do rei (1991), A última quimera (1995), Desmundo (1996), Amrik (1997), Clarice (1999) e Dias e Dias (2002) a autora elabora o tema histórico, fazendo-o ocupar o centro da narrativa. Este tipo de romance vem recebendo denominações diversas, como a da pesquisadora canadense Linda Hutcheon – “metaficção historiográfica” – e a de Seymour Menton - “nueva novela histórica”.
No entanto, Ana Miranda é uma ficcionista e traz, em sua bibliografia, romances puramente ficcionais (ou seja, não fazem da mimese do discurso histórico o centro da narrativa) como, por exemplo, Sem pecado (1993), e Caderno de sonhos (2000). Além destas, há ainda um livro que é uma coletânea de poemas freiráticos, e, portanto, resultado de uma pesquisa literária, mais do que a ficcionalização desta pesquisa. Estamos falando de Que seja em segredo (1998). Em todas as obras da autora, apesar de variarem em sua qualidade literária, é possível perceber um minucioso trabalho sobre a figura feminina e o seu “poder” sexual e intuitivo sobre a figura masculina.
Nota-se também que o histórico em suas obras é quase sempre narrado através do modo biográfico. Isto se dá mais claramente em Boca do Inferno e em A última quimera onde justamente os biografados são cânones da literatura brasileira (Gregório de Matos e Augusto dos Anjos), trazendo para o interior da obra uma discussão que se origina no posicionamento histórico dos poetas, passa por suas individualidades (sua história individual) e alcança a crítica literária canonizadora. A mais recente publicação romanesca de Ana Miranda, Dias e Dias (Companhia das Letras, 243p.), segue esta mesma trilha, narrando os dias de Gonçalves Dias, através do olhar romântico de Feliciana.
Inspirado na poesia “Dias após dias” de Rubem Fonseca, o romance constrói a vida do poeta romântico, revelando detalhes pessoais. O conhecimento destes detalhes, por Feliciana, uma personagem inventada, se dá através das cartas do poeta enviadas a seu grande amigo Alexandre Teófilo de Carvalho Leal. Estas cartas, freqüentemente citadas no romance, criam uma ilusão de realidade, fazem o leitor esquecer-se da ficcionalidade de Feliciana e de outros personagens que têm existência apenas no romance, colocando-os no mesmo plano de existência de Alexandre Teófilo e Gonçalves Dias. Este é um romance que se diferencia do Boca do Inferno pelo retorno nacionalista que faz, pelo maior destaque dado ao discurso biográfico e pelo amadurecimento criativo. As notas da autora, ao final do romance, são menos referências bibliográficas do que indicações que auxiliariam o leitor no reconhecimento do caráter documental de seu texto. Por outro lado, estas indicações mostram um caminho para a reescrita ou, pelo menos, para a reconstrução do romance pelo leitor e, para que ele não considere o texto uma colagem irresponsável dos textos de Gonçalves Dias, a autora avisa que “poesias e cartas de Gonçalves Dias foram incorporadas à expressão da narradora. Os fragmentos não estão destacados”.[1] Vemos, assim, que talvez não tenha sido apenas o grande sucesso do seu romance de 1989, que vendeu 50.000 exemplares, o motivo pelo qual Ana Miranda investe nesta nova e mesma produção, mas também há nesta realização uma busca pela representação de um nacionalismo re-emergente. Além disso, Dias e Dias, assim como A última quimera, não pode deixar de ser considerada uma grande realização apenas por fazer parte de um mesmo tipo de construção inaugurada pelo Boca do Inferno. Ao contrário, pede uma análise mais profunda, considerando o percurso produtivo da autora.
Estas obras ilustram os romancistas da atualidade que ao tratarem da história, são ficcionistas e historiadores que entram pelas fendas da história, aproveitando-se da liberdade do mundo ficcional para reescreverem fatos canonizados pela história.
[1] MIRANDA, Ana. Dias e Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 243.
No entanto, Ana Miranda é uma ficcionista e traz, em sua bibliografia, romances puramente ficcionais (ou seja, não fazem da mimese do discurso histórico o centro da narrativa) como, por exemplo, Sem pecado (1993), e Caderno de sonhos (2000). Além destas, há ainda um livro que é uma coletânea de poemas freiráticos, e, portanto, resultado de uma pesquisa literária, mais do que a ficcionalização desta pesquisa. Estamos falando de Que seja em segredo (1998). Em todas as obras da autora, apesar de variarem em sua qualidade literária, é possível perceber um minucioso trabalho sobre a figura feminina e o seu “poder” sexual e intuitivo sobre a figura masculina.
Nota-se também que o histórico em suas obras é quase sempre narrado através do modo biográfico. Isto se dá mais claramente em Boca do Inferno e em A última quimera onde justamente os biografados são cânones da literatura brasileira (Gregório de Matos e Augusto dos Anjos), trazendo para o interior da obra uma discussão que se origina no posicionamento histórico dos poetas, passa por suas individualidades (sua história individual) e alcança a crítica literária canonizadora. A mais recente publicação romanesca de Ana Miranda, Dias e Dias (Companhia das Letras, 243p.), segue esta mesma trilha, narrando os dias de Gonçalves Dias, através do olhar romântico de Feliciana.
Inspirado na poesia “Dias após dias” de Rubem Fonseca, o romance constrói a vida do poeta romântico, revelando detalhes pessoais. O conhecimento destes detalhes, por Feliciana, uma personagem inventada, se dá através das cartas do poeta enviadas a seu grande amigo Alexandre Teófilo de Carvalho Leal. Estas cartas, freqüentemente citadas no romance, criam uma ilusão de realidade, fazem o leitor esquecer-se da ficcionalidade de Feliciana e de outros personagens que têm existência apenas no romance, colocando-os no mesmo plano de existência de Alexandre Teófilo e Gonçalves Dias. Este é um romance que se diferencia do Boca do Inferno pelo retorno nacionalista que faz, pelo maior destaque dado ao discurso biográfico e pelo amadurecimento criativo. As notas da autora, ao final do romance, são menos referências bibliográficas do que indicações que auxiliariam o leitor no reconhecimento do caráter documental de seu texto. Por outro lado, estas indicações mostram um caminho para a reescrita ou, pelo menos, para a reconstrução do romance pelo leitor e, para que ele não considere o texto uma colagem irresponsável dos textos de Gonçalves Dias, a autora avisa que “poesias e cartas de Gonçalves Dias foram incorporadas à expressão da narradora. Os fragmentos não estão destacados”.[1] Vemos, assim, que talvez não tenha sido apenas o grande sucesso do seu romance de 1989, que vendeu 50.000 exemplares, o motivo pelo qual Ana Miranda investe nesta nova e mesma produção, mas também há nesta realização uma busca pela representação de um nacionalismo re-emergente. Além disso, Dias e Dias, assim como A última quimera, não pode deixar de ser considerada uma grande realização apenas por fazer parte de um mesmo tipo de construção inaugurada pelo Boca do Inferno. Ao contrário, pede uma análise mais profunda, considerando o percurso produtivo da autora.
Estas obras ilustram os romancistas da atualidade que ao tratarem da história, são ficcionistas e historiadores que entram pelas fendas da história, aproveitando-se da liberdade do mundo ficcional para reescreverem fatos canonizados pela história.
[1] MIRANDA, Ana. Dias e Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 243.
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