O romance histórico de origem romântica é divulgador e confirmador do ideal nacionalista que se espalha pelo ocidente. No período romântico, o discurso de nação assume posição privilegiada no campo da narrativa ficcional e isto se dá pela apropriação do discurso da história. As análises empreendidas em meus trabalhos de pesquisa mostrarão que, para os escritores modernistas de 1922, o passado – o discurso de nação romântico, principalmente – é algo que precisa ser ultrapassado ou sobreposto por um novo discurso, enquanto que para os pós-modernistas – considerados aqui aqueles publicados a partir de 1980 – o presente só pode ser avaliado ou pensado, a partir de fragmentos do passado. A subversão do texto antigo se dá mais no sentido de propor sua reflexão e relativização, quando o transcontextualiza, do que no sentido de sua desautorização. A intertextualidade, tendo em vista as suas cinco formas apresentadas por Gerárd Genett, nos parece, é procedimento recorrente nos três períodos citados, porém transforma-se para responder a expectativas e ideologias diversas. De acordo com o que vemos em grande parte da produção de ficção histórica pós-moderna, repensar o discurso histórico a partir de proposições críticas feitas através, principalmente, da citação, da paródia e da ironia a distancia dos romances históricos românticos e isto será demonstrado pelo posicionamento dos autores, implícito ou real, diante do material histórico. Os romances de Ana Miranda vêm reafirmar que todo romance histórico revela o posicionamento do autor sobre o conceito de história e, mais do que isso, revela também o grau de intimidade deste autor com os elementos ficcionais. Os recursos ficcionais utilizados nos romances da autora cearense respondem bem tanto ao caráter inventivo quanto ao histórico. Há, na revisitação da memória e do momento literário de cada poeta, uma busca por refigurar e refletir sobre discursos de nação, ou a ausência deles, do passado. No romance Boca do inferno, Gregório de Matos, no século XVII, revolta-se com as atitudes subservientes do Brasil em relação a Portugal, vivendo uma relação de amor e ódio com as duas pátrias, mas é um sabiá em liberdade. Enquanto que em Dias e dias, Gonçalves Dias, no século XIX, luta pela afirmação da identidade brasileira diante da pátria-mãe. Para isso, é preciso superar a perda do paternalismo colonial e suportar as limitações da gaiola nacionalista. De outro modo, em A última quimera, as reflexões sobre o canônico revelam uma crítica ao sistema histórico-literário brasileiro. Em franco reconhecimento da autonomia da literatura e da comunidade nacional brasileiras que discute, internamente, seu processo de formação.
Palavras-chave: Romance histórico. Discursos de nação. Ironia e paródia. Ana Miranda
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