A bilbioteca é a história viva do Livro e seus leitores

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Biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura - RJ

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Considerações sobre o romance Boca do Inferno

(Este texto é parte integrante da dissertação de mestrado, defendida em 2003, na UFPR, por Eunice de Morais.)

A personagem Gregório de Matos é importante no romance Boca do Inferno(1989), de Ana Miranda, enquanto participante de um momento histórico e enquanto figura literária. O poeta não é causa nem conseqüência do momento histórico e literário no Brasil, mas é parte dele, age e reage de acordo com crenças e costumes da época e de sua classe social, porém com ideais que o diferenciam entre muitos artistas do final do século XVII. Isto fica claro quando o narrador o descreve:

"O mundo sempre estivera cheio de poetas como ele: Afonso Eanes de Coton (...); O galego Pero da Ponte (...); o clérigo Martim Moxa (...); o fidalgo Tomás de Noronha (...); Francisco Manuel de Melo (...). Gregório de Matos não estava entre os piores. Era até compreensível que ele fosse assim. Os poeta como ele tinham sido amados pelo povo, não apenas pelo que escreviam, mas pelos pecados que cometiam. Com a aura divina da poesia, não haviam deixado de ser homens comuns." (p. 205).


Narrar a vida de Gregório de Matos a partir do crime do alcaide Francisco Teles traz ao romance duas portas de entrada: a maturidade do poeta tanto como indivíduo social quanto como artista e as transformações e perseguições políticas em decorrência do crime. Assim, o crime é um momento decisivo historicamente para a vida do poeta ficcionalizado e para as mudanças políticas no país. A importância do romance, no entanto está nos questionamentos sociais e políticos que, apesar de antigos, não envelhecem neste país: os cânones literários e históricos continuam sendo escolhidos pelos críticos da literatura e pelos escritores da história, a política continua corrupta, os brasileiros dominados por elementos culturais externos; por outro lado há a derrocada da idéia de sermos um povo pacífico desde a origem.

A representação do período histórico narrado (04 de junho de 1683 até, presumivelmente, junho de 1684) se dá muito mais pelo espírito moralizador imposto pelos colonizadores europeus do que pelas descrições figurativas da geografia ou dos fatos históricos paralelos ao fato narrado. A descrição da cidade da Bahia e dos personagens se dá mais fortemente pelo caráter moral (disputa entre o bem e o mal) do que por descrições cenográficas, ou seja, a reprodução mimética serve como apoio para a apresentação dos ideais políticos, sociais, religiosos e literários que se concentram na figura de Gregório de Matos, “Boca do Inferno não era ele, era a cidade. Era a colônia”. (p.232)

"(...) Mas a colônia andava atrelada a Portugal. As moedas e as riquezas não ficavam no Brasil. A economia marchava conforme as circunstâncias que viessem a atender às necessidades do regime fazendário da metrópole (...) Os valores das mercadorias na colônia eram miseráveis. Em Portugal altíssimos. (...)."
"Os brasileiros são bestas e estarão a trabalhar toda a vida por manter maganos de Portugal." (p. 293).

Assim, o que paira sobre a obra é exatamente a disputa entre o ser e o dever ser dos indivíduos que viveram ao lado do poeta. O ser, em Boca do Inferno, é o ser barroco por excelência.

"De noite, aqueles mesmos freqüentadores de missas andavam em direção aos calundus e feitiços. (...). Quando se confessavam na igreja, escondiam isso dos padres apesar de não ser raro ver-se um sacerdote em tais cerimônias." (p.14).

Este parece ser o grande mérito da obra: fazer a história de Gregório de Matos ao estilo de sua época e de sua obra poética sem se opor às tendências romanescas do presente. O mesmo poeta que critica a submissão dos brasileiros em relação a Portugal, não quer abandonar a Bahia “se eu tiver de morrer, que seja aqui mesmo.” (p.232).

A vida de Gregório de Matos, no romance, tem como centro a cidade da Bahia, que é uma espécie de entidade moral que surge como espaço histórico e ganha personalidade pelas descrições satíricas do poeta. A cidade é incorporadora das decepções e protestos de Gregório de Matos em relação ao contexto político e social da época. O fato principal é o crime do Alcaide Francisco Teles, de modo que o protagonista, centro das narrativas biográficas históricas, é no romance um dos centros da narrativa.

"Gregório de Matos estava repleto de dúvidas. Ser formado em cânones e habilitado de genere para a leitura de bacharel não o satisfazia. Jovem, entregara-se à poesia, cheio de sonhos clássicos; porém, com o tempo, passara a escrever apenas por um sentimento compulsivo. (...) As poesias líricas que escrevia lhe pareciam muito abaixo das de Gongora y Argote. E inúteis."(p. 204).

Gregório de Matos aparece na obra como escritor e advogado rebelde e seus pensamentos servem, muitas vezes, de assunto para o narrador que quase sempre adota o estilo cruel do poeta em ironias contra a cidade, as pessoas influentes, as mulheres, os escravos, etc.

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