Boa parte dos romances da escritora Ana Miranda revela o crescente interesse pela temática histórica na ficção contemporânea. Além de Boca do Inferno (1989), nos romances O retrato do rei (1991), A última quimera (1995), Desmundo (1996), Amrik (1997), Clarice (1999) e Dias e Dias (2002) a autora elabora o tema histórico, fazendo-o ocupar o centro da narrativa. Este tipo de romance vem recebendo denominações diversas, como a da pesquisadora canadense Linda Hutcheon – “metaficção historiográfica” – e a de Seymour Menton - “nueva novela histórica”.
No entanto, Ana Miranda é uma ficcionista e traz, em sua bibliografia, romances puramente ficcionais (ou seja, não fazem da mimese do discurso histórico o centro da narrativa) como, por exemplo, Sem pecado (1993), e Caderno de sonhos (2000). Além destas, há ainda um livro que é uma coletânea de poemas freiráticos, e, portanto, resultado de uma pesquisa literária, mais do que a ficcionalização desta pesquisa. Estamos falando de Que seja em segredo (1998). Em todas as obras da autora, apesar de variarem em sua qualidade literária, é possível perceber um minucioso trabalho sobre a figura feminina e o seu “poder” sexual e intuitivo sobre a figura masculina.
Nota-se também que o histórico em suas obras é quase sempre narrado através do modo biográfico. Isto se dá mais claramente em Boca do Inferno e em A última quimera onde justamente os biografados são cânones da literatura brasileira (Gregório de Matos e Augusto dos Anjos), trazendo para o interior da obra uma discussão que se origina no posicionamento histórico dos poetas, passa por suas individualidades (sua história individual) e alcança a crítica literária canonizadora. A mais recente publicação romanesca de Ana Miranda, Dias e Dias (Companhia das Letras, 243p.), segue esta mesma trilha, narrando os dias de Gonçalves Dias, através do olhar romântico de Feliciana.
Inspirado na poesia “Dias após dias” de Rubem Fonseca, o romance constrói a vida do poeta romântico, revelando detalhes pessoais. O conhecimento destes detalhes, por Feliciana, uma personagem inventada, se dá através das cartas do poeta enviadas a seu grande amigo Alexandre Teófilo de Carvalho Leal. Estas cartas, freqüentemente citadas no romance, criam uma ilusão de realidade, fazem o leitor esquecer-se da ficcionalidade de Feliciana e de outros personagens que têm existência apenas no romance, colocando-os no mesmo plano de existência de Alexandre Teófilo e Gonçalves Dias. Este é um romance que se diferencia do Boca do Inferno pelo retorno nacionalista que faz, pelo maior destaque dado ao discurso biográfico e pelo amadurecimento criativo. As notas da autora, ao final do romance, são menos referências bibliográficas do que indicações que auxiliariam o leitor no reconhecimento do caráter documental de seu texto. Por outro lado, estas indicações mostram um caminho para a reescrita ou, pelo menos, para a reconstrução do romance pelo leitor e, para que ele não considere o texto uma colagem irresponsável dos textos de Gonçalves Dias, a autora avisa que “poesias e cartas de Gonçalves Dias foram incorporadas à expressão da narradora. Os fragmentos não estão destacados”.[1] Vemos, assim, que talvez não tenha sido apenas o grande sucesso do seu romance de 1989, que vendeu 50.000 exemplares, o motivo pelo qual Ana Miranda investe nesta nova e mesma produção, mas também há nesta realização uma busca pela representação de um nacionalismo re-emergente. Além disso, Dias e Dias, assim como A última quimera, não pode deixar de ser considerada uma grande realização apenas por fazer parte de um mesmo tipo de construção inaugurada pelo Boca do Inferno. Ao contrário, pede uma análise mais profunda, considerando o percurso produtivo da autora.
Estas obras ilustram os romancistas da atualidade que ao tratarem da história, são ficcionistas e historiadores que entram pelas fendas da história, aproveitando-se da liberdade do mundo ficcional para reescreverem fatos canonizados pela história.
[1] MIRANDA, Ana. Dias e Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 243.
2 comentários:
A simples leitura de um romance pode nos levar a infindáveis caminhos, como leitor. A produção de significados e a resignificação abrem as portas do texto para mergulhos no invisível, no indizível que se esconde a frente de nossos olhos.
O primeiro contato com Ana Miranda se deu pelas páginas de Boca do Inferno, consumidas de maneira voraz há dezesseis anos, logo seguida pela leitura de O Retrato do Rei, de A Última Quimera, Desmundo, Amrik e Dias e Dias.
Entre um e outro o delicioso encontro com Clarice, o Caderno de Sonhos e as crônicas publicadas na Caros Amigos.
Estudar a obra de Ana Miranda é projeto mais recente, fruto de conversas com outros pesquisadores, de dois encontros com a criadora dessas imagens e outros percalços que o factual da historiografia não dá conta de efetivo registro.
Construir um fio condutor por onde desfilem as personagens inquietantes deste nosso Brasil é possível pelos princípios elementares da construção narrativa, de um fluxo de idéias, de reflexões históricas e de bastidores nos quais as notícias ganham o status de matéria bruta, lavada e polida, como as pedras do caminho solitário por que trilha o pesquisador.
Estamos aqui para partilhar nossas curiosidades e inquietações, desassossegos momentâneos e delírios clarividentes. De Oribela a Feliciana, dos demônios de Gregório aos Anjos de Augusto, hipertrofias de uma cultura imorredoura que palmilha o horizonte infinito com a centelha da distorção dos costumes de um Brasil que sofre, que nos faz sofrer, com a única arma que nos é autenticamente oferecida: a linguagem artística, substituindo as metralhadoras e os punhais que saqueiam a nossa fé, nossos direitos e nos jogam no emaranhado de signos prontos para serem identificados.
Que bom ver blogs de literatura. Ótima idéi, Nice.
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