A bilbioteca é a história viva do Livro e seus leitores

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Biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura - RJ

domingo, 10 de setembro de 2017

Vitorino Nemésio: o Rio de Janeiro como Medium-De-Reflexão

Eunice de Morais

O olhar é a última gota do ser humano
(W. Benjamin)

A crítica de Walter Benjamin, fundamentalmente, revela-se como atos de reflexão articulados em cinco níveis. No primeiro nível está a autorreflexividade da crítica. Neste nível observamos que Benjamim está sempre a refletir sobre sua própria atividade de crítico, sobre o local e o papel da crítica na sociedade. Em segundo lugar, faz-se uma leitura detalhada e uma reflexão sobre a obra criticada, a qual será sempre analisada, segundo Novalis, a partir de seu próprio ideal e não de um modelo a-histórico. Em terceiro lugar, verificamos a reflexão sobre a história da arte e da literatura, na qual Benjamin, partícipe de uma forte tradição alemã, desenvolveu o tema da teoria dos gêneros literários, como no livro Sobre o barroco e no seu ensaio sobre o narrador, de 1936. Em quarto lugar, elabora-se uma reflexão crítica sobre a sociedade. Observamos que a crítica foi praticada por Benjamin, a partir do seu presente e voltada para si, sem a ilusão positivista de se poder penetrar no passado “tal como ele aconteceu”. Por último, o quinto nível reflexivo articula todos os níveis anteriores. A reflexão sobre a teoria da história feita por Benjamin critica os modelos da evolução histórica, tanto liberais como marxistas, que acreditavam em um avanço constante e positivo do devir da história. Benjamin opôs a este modelo uma imagem da história como acúmulo de catástrofes (SELIGMANN SILVA, 2016). Queremos observar, a partir desse cinco níveis do ato reflexivo na crítica benjaminiana, que cada um deles está sempre a voltar-se para a identidade do crítico refletida no texto, para a autorreflexividade. Assim, a ideia de espelhamento do eu em todo ato de crítica ou de produção artística atravessa toda a proposta teórica de Benjamin. É assim que vemos em Rua de mão única e Imagens de pensamento o reflexo das metrópoles, um texto-cidade que se constrói a partir do presente e do sujeito crítico transeunte; a cidade é o meio especular através do qual são refletidas as imagens (social, histórica, crítica e literária) que cada uma das metrópoles representa ou significa para o eu que a observa.
Rua de mão única (1928/2013), de Walter Benjamin, compõe-se de um conjunto de aforismos através dos quais o autor pretende “Captar a atualidade como o reverso do eterno na história e tirar uma impressão dessa face escondida da medalha. De resto o livro deve muito a Paris, é uma primeira tentativa de escrever minha relação com esta cidade.” (BENJAMIN, p.123).
O olhar de Benjamin através da metrópole moderna, como palco de grandes transformações, se constitui em imagens de pensamento que não apenas retratam a cidade, mas a consideram como medium-de-reflexão[1]. Tanto em Rua de Mão única quanto em Imagens de pensamento, Benjamin provoca o leitor com reflexos da imagem e espaços da cidade que incidem, atravessam e transformam a si mesmo, levando-o a uma reflexão sobre o modo como o habitante da metrópole se relaciona com o texto-cidade. Weimar, Moscou, Paris, Marselha, Nápoles são formas a serem apreendidas e subvertidas, são medium-de-reflexão e portanto refletem, tal qual espelho, as tensões da modernidade. O transeunte diante dos espaços e informações citadinas reagiria tal como Benjamin em “Mercadoria a granel: expedição e embalagem”:

De manhã cedo, atravessava Marselha de automóvel para apanhar o trem, e à medida que passavam por mim lugares conhecidos e outros desconhecidos, ou outros que só vagamente me lembrava, a cidade, nas minhas mãos, transformava-se num livro ao qual ainda deitava uma rápida vista de olhos antes de ele desaparecer da minha vista no caixote do sótão, sabe Deus por quanto tempo. (BENJAMIN, p. 52).

Em Infância berlinense, o transeunte benjaminiano de Marselha tem a cidade nas mãos como um livro que desaparece no caixote do sótão, pelo tempo indeterminado da memória. Ele afirma não haver nada de especial em “não nos orientarmos numa cidade. Mas perdermo-nos numa cidade, como nos perdemos numa floresta, é coisa que se precisa aprender” (BENJAMIN, p.78). Aprender a perder-se na floresta significa retornar ao passado primordial e primitivo da urbe e do homem. Para Benjamin, é preciso “escavar e recordar” para reconhecermo-nos no presente. A memória não é instrumento, mas meio para exploração do passado, “é o meio através do qual chegamos ao vivido, do mesmo modo que a terra é o meio no qual estão soterradas as cidades antigas. Quem procura aproximar-se do seu próprio passado tem de se comportar como um homem que escava” (BENJAMIN, p. 101). O termo medium-de-reflexão, utilizado por W. Benjamin pretende, portanto, apontar o potencial da obra de arte na elaboração do conhecimento crítico e a metrópole moderna é para ele o painel luminoso em que se fundam e espelham as reflexões do leitor. Nesta proposta de trabalho recuperamos a expressão com o intuito de observar esse potencial crítico e principalmente intimista presente, na poesia de Vitorino Nemésio, na construção de imagens da cidade do Rio de Janeiro.
Entendemos que há uma aproximação possível entre o olhar sobre a grande cidade contemporânea, que marca a forma e o estilo da escrita Benjaminiana da história, e o olhar poético de Vitorino Nemésio sobre a cidade do Rio de Janeiro, no sentido de que as obras de ambos revelam a cidade como espaço mediador e veículo informativo das trans-formações históricas e culturais. O Rio de Janeiro nemesiano é, como veremos, reflexo dos sentimentos de brasilidade revelada e exaltada, associado ao saudosismo e ao pertencimento açoriano do poeta. (...)
     



[1]  Termo usado pelos Românticos de Iéna para designar o potencial da obra de arte para proporcionar o conhecimento crítico. TEXTO COMPLETO SERÁ PUBLICADO NA REVISTA "CONVERGÊNCIA LUSÍADA" - Real Gabinete Português de Leitura.

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