Vitorino Nemésio: o Rio de Janeiro como Medium-De-Reflexão
Eunice de Morais
O olhar é a última gota do ser humano
(W. Benjamin)
A crítica de Walter Benjamin, fundamentalmente, revela-se
como atos de reflexão articulados em cinco níveis. No primeiro nível está a
autorreflexividade da crítica. Neste nível observamos que Benjamim está sempre
a refletir sobre sua própria atividade de crítico, sobre o local e o papel da
crítica na sociedade. Em segundo lugar, faz-se uma leitura detalhada e uma
reflexão sobre a obra criticada, a qual será sempre analisada, segundo Novalis,
a partir de seu próprio ideal e não de um modelo a-histórico. Em terceiro
lugar, verificamos a reflexão sobre a história da arte e da literatura, na qual
Benjamin, partícipe de uma forte tradição alemã, desenvolveu o tema da teoria
dos gêneros literários, como no livro Sobre o barroco e no seu ensaio sobre
o narrador, de 1936. Em quarto lugar, elabora-se uma reflexão crítica
sobre a sociedade. Observamos que a crítica foi praticada por Benjamin, a
partir do seu presente e voltada para si, sem a ilusão positivista de se poder
penetrar no passado “tal como ele aconteceu”. Por último, o quinto nível
reflexivo articula todos os níveis anteriores. A reflexão sobre a teoria da
história feita por Benjamin critica os modelos da evolução histórica, tanto
liberais como marxistas, que acreditavam em um avanço constante e positivo do
devir da história. Benjamin opôs a este modelo uma imagem da história como
acúmulo de catástrofes (SELIGMANN
SILVA, 2016).
Queremos observar, a partir desse cinco níveis do ato reflexivo na crítica
benjaminiana, que cada um deles está sempre a voltar-se para a identidade do
crítico refletida no texto, para a autorreflexividade. Assim, a ideia de
espelhamento do eu em todo ato de crítica ou de produção artística atravessa
toda a proposta teórica de Benjamin. É assim que vemos em Rua de mão única
e Imagens de pensamento o reflexo das metrópoles, um texto-cidade
que se constrói a partir do presente e do sujeito crítico transeunte; a cidade
é o meio especular através do qual são refletidas as imagens (social,
histórica, crítica e literária) que cada uma das metrópoles representa ou
significa para o eu que a observa.
Rua de mão única (1928/2013), de Walter Benjamin,
compõe-se de um conjunto de aforismos através dos quais o autor pretende “Captar
a atualidade como o reverso do eterno na história e tirar uma impressão dessa
face escondida da medalha. De resto o livro deve muito a Paris, é uma primeira
tentativa de escrever minha relação com esta cidade.” (BENJAMIN, p.123).
O olhar de Benjamin através da
metrópole moderna, como palco de grandes transformações, se constitui em
imagens de pensamento que não apenas retratam a cidade, mas a consideram como medium-de-reflexão[1]. Tanto em Rua de Mão única quanto em Imagens
de pensamento, Benjamin provoca o leitor com reflexos da imagem e espaços
da cidade que incidem, atravessam e transformam a si mesmo, levando-o a uma
reflexão sobre o modo como o habitante da metrópole se relaciona com o texto-cidade.
Weimar, Moscou, Paris, Marselha, Nápoles são formas a serem apreendidas e
subvertidas, são medium-de-reflexão e
portanto refletem, tal qual espelho, as tensões da modernidade. O
transeunte diante dos espaços e informações citadinas reagiria tal como
Benjamin em “Mercadoria a granel: expedição e embalagem”:
De manhã cedo, atravessava Marselha de automóvel para
apanhar o trem, e à medida que passavam por mim lugares conhecidos e outros
desconhecidos, ou outros que só vagamente me lembrava, a cidade, nas minhas
mãos, transformava-se num livro ao qual ainda deitava uma rápida vista
de olhos antes de ele desaparecer da minha vista no caixote do sótão, sabe Deus
por quanto tempo. (BENJAMIN, p. 52).
Em Infância
berlinense, o transeunte benjaminiano de Marselha tem a cidade nas mãos
como um livro que desaparece no caixote do sótão, pelo tempo indeterminado da
memória. Ele afirma não haver nada de especial em “não nos orientarmos numa
cidade. Mas perdermo-nos numa cidade, como nos perdemos numa floresta, é coisa
que se precisa aprender” (BENJAMIN, p.78).
Aprender a perder-se na floresta significa retornar ao passado primordial e
primitivo da urbe e do homem. Para Benjamin, é preciso “escavar e recordar”
para reconhecermo-nos no presente. A memória não é instrumento, mas meio para
exploração do passado, “é o meio através do qual chegamos ao vivido, do mesmo
modo que a terra é o meio no qual estão soterradas as cidades antigas. Quem
procura aproximar-se do seu próprio passado tem de se comportar como um homem que
escava” (BENJAMIN, p. 101). O termo medium-de-reflexão,
utilizado por W. Benjamin pretende, portanto, apontar o potencial da obra
de arte na elaboração do conhecimento crítico e a metrópole moderna é para ele
o painel luminoso em que se fundam e espelham as reflexões do leitor. Nesta
proposta de trabalho recuperamos a expressão com o intuito de observar esse
potencial crítico e principalmente intimista presente, na poesia de Vitorino
Nemésio, na construção de imagens da cidade do Rio de Janeiro.
Entendemos
que há uma aproximação possível entre o olhar sobre a grande cidade
contemporânea, que marca a forma e o estilo da escrita Benjaminiana da história,
e o olhar poético de Vitorino Nemésio sobre a cidade do Rio de Janeiro, no
sentido de que as obras de ambos revelam a cidade como espaço mediador e
veículo informativo das trans-formações históricas e culturais. O Rio de
Janeiro nemesiano é, como veremos, reflexo dos sentimentos de brasilidade
revelada e exaltada, associado ao saudosismo e ao pertencimento açoriano do
poeta. (...)
[1] Termo
usado pelos Românticos de Iéna para designar o potencial da obra de arte
para proporcionar o conhecimento crítico. TEXTO COMPLETO SERÁ PUBLICADO NA REVISTA "CONVERGÊNCIA LUSÍADA" - Real Gabinete Português de Leitura.
