A bilbioteca é a história viva do Livro e seus leitores

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Biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura - RJ

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

“Culturas, identidades e subjetividades: linguagens em movimento”

Prof. Dr. ª Eunice de Morais (UEPG)
Prof. Dr. Marcos Barbosa Carreira (UEPG)


O CIEL – Ciclo de Estudos em Linguagem – hoje consolidado como congresso internacional – chega a sua oitava edição em 2015, mantendo-se como espaço de reflexão a respeito de questões contemporâneas relacionadas aos desafios da formação de professores pesquisadores. Por isso, a temática eleita para esta edição aponta para as concepções de que há associação insolúvel entre linguagem e cultura; e de que identidades e subjetividades são discursivamente construídas (Bakhtin, 2003; Hall, 2000). Para Bakhtin, a linguagem acompanha todas as atividades essencialmente humanas, portanto culturais, às quais estão associados os gêneros discursivos (poético, pictórico, oral, escrito). A caracterização destes se dá tanto pelo que se faz com a linguagem (mostrar, explicar, descrever, representar) quanto pelos meios linguísticos através dos quais se manifestam os tipos de enunciados e modos de encadeamento destes enunciados. Assim, entende-se que as alterações dos gêneros discursivos remetem à variação dos mundos (universos de linguagem marcadamente culturais). O que nos leva a refletir sobre o apagamento ou a indefinição de gêneros discursivos que se configuram na fronteira, no intermédio de outros gêneros, colocando a linguagem, “multiplicadora de mundos” e “mescladora de mundos” (Bakhtin), em movimento constante.
A partir da ideia de que culturas, identidades e subjetividades são linguagens em movimento e intercambiáveis é que os textos deste volume se coadunam. Há um fio de reflexão e discussão a respeito de temas relacionados aos campos da arte da cultura, da literatura, da filosofia, da sociedade contemporânea e do ensino de língua estrangeira, que nos leva diretamente aos mundos multiplicados e mesclados da e pela linguagem. Em alguns destes textos vemos as linguagens se inter-relacionando e se entrelaçando, abolindo ou tornando complexas as fronteiras entre cartas e crônicas, poesia e história, pintura e biografia.
Vemo-nos intensamente imbricados no universo do hibridismo. Culturas, identidades e subjetividades adquirem em nosso tempo a impossibilidade, talvez benéfica, da definição, do enquadramento único e central. Vivemos no tempo do entre-lugar, do terceiro elemento nascido da conjugação da pluralidade. Tempos da modernidade líquida de Bauman, das comunidades imaginadas de B. Anderson, de identidades culturais híbridas, do sujeito descentrado, múltiplo e relativizado. A linguagem, portanto, é o meio pelo qual se dá corpo e se revelam culturas, identidades sociais e culturais e subjetividades.
Do lado de dentro deste conjunto de ideias marcantes da contemporaneidade é que os textos que compõem este livro vêm refletir e problematizar, sob perspectivas diversas, os movimentos culturais, identitários e subjetivos, observando-os por meio de comparações, análises ou aproximações de caráter biográfico, conceitual, contextual e social. Assim, entendendo que aspectos da cultura, da identidade e da subjetividade não são estanques, propomos uma composição do volume em quatro partes significativas: retratos, palavra e poder, linguagens em movimento e ensino.
A primeira parte é composta pelos ensaios “Selos e sigilos: correspondência de Clarice Lispector” e “Retratos do delírio” da professora Nádia Gotlib e do professor Daniel de Oliveira Gomes, respectivamente. Colocar os textos assim ladeados é, em última análise, uma provocação, pois apontam para perspectivas aparentemente desconexas e gêneros de produção e investigação absolutamente diversos. No entanto, preciso destacar nesses ensaios a questão sobre a possibilidade de representação fiel, integral e real do sujeito. O retrato de Clarice Lispector ganha contornos e definição a partir das leituras e análises da sua correspondência publicada; e Gotlib destaca esta importância a partir da leitura da obra de Olga Borelli. Segundo Gotlib:

O livro [de Boreli] pode ser considerado uma porta de entrada para o desvendamento de uma escritora, pois ali encontram-se notas valiosas sobre seu método e concepção de escrita, sua postura diante da vida, além de hábitos, amizades, afetos, e tantos outros itens de importância para se traçar os contornos de uma fisionomia intelectual e artística. De fato, ganha realce, no livro, ‘o retrato da escritora’. Mas se assim é, o livro também pode ser considerado um exemplo de como não se editar uma correspondência...” (GOTLIB)

Os problemas quanto à edição das cartas remetem, neste caso, à questão do sigilo ou da censura de trechos das correspondências o que, de certa forma, borra ou turva o retrato pretendido. E outro momento do ensaio, a autora afirma que o sucesso das publicações de carta de Clarice deve-se ao fato de que “Observa-se uma voz que está voltada, sim, para o seu entorno, mas sobretudo uma voz que está atenta ao território da intimidade. E que descreve essas profundezas da alma com detalhes dignos de uma personagem bem construída.” (p.   ). Temos aqui um movimento de linguagem que faz um gênero documental, como as cartas, transitar pela ficção, o que fará a autora afirmar a seguir que “algumas peças desse conjunto epistolográfico beiram outro gênero, o das  crônicas, não só pela linguagem solta, aberta a qualquer tipo de motivo inspirador, mas também pelos toques de encantamento e argúcia de observação.” (Negrito meu, P....)
Para além desta movimentação, desse rompimento de fronteiras entre os gêneros analisados, há a questão da construção do retrato da ficcionista que se dá pela soma das correspondências à sua própria obra literária. A pergunta que nos salta após a leitura do texto de Gomes é: que retrato é esse? A linguagem que compõe esse retrato de Lispector é diferente do retrato pictórico de Van Gogh, mas parece que o estatuto de não representação se mantém. Segundo Gomes “O retrato é visto como algo que assegura a presença (e a ausência) do sujeito e não propriamente o representa, nesse sentido, juntamente com Jean-Luc Nancy, não podemos ler o retrato como mera imagem de um sujeito preexistente.” (GOMES, p.    ) Não haveria em cada carta de Lispector uma presença (e uma ausência) que é passível de transformação e mudança?
                        O ensaio de Gomes investiga a “ex-posição em retratos de Foucault, Artaud e, em especial, Van Gogh”. Para o autor, “nestas três personalidades, noto uma questão quanto ao retrato de si para si, como insano do pensar, onde o sujeito de fundo é ausente, um retrato em que o sujeito do retrato é o sujeito mesmo. A efetividade e a essência do sujeito está, assim, não mais que no retrato, exclusivamente”. Essa descrença no potencial mimético do retrato, em seu caráter representativo da vida e do espírito, segundo Gomes, levam Vangogh, Artaud e Foucault a acreditarem na impossibilidade de um movimento dialético entre interioridade e exterioridade.
A segunda parte reúne os ensaios “A Palavra definitiva – Escritura e militância na literatura argentina (Conti, Urondo, Walsh)” e “La inesperada y sutil historia de amor de una mujer fea, chueca y bizca”, de André Queirós e Cecilia Luque, respectivamente.   Consideradas aqui as distâncias de estilo dos ensaístas e a focalização emblemática dos tipos de violência (do Estado e de gênero) acercada pelos textos, observa-se que é por meio da linguagem literária que se estabelecem as relações de poder em contextos sociais diversos.
Cecilia Luque analisa o modo como a violência contra a mulher é explorada pela narradora argentina, Angélica Gorodischer, em seu conto “La cámara oscura” [“A câmara escura”] (1983), e pela cineasta María Victoria Menis, no filme homônimo de 2008, baseado no referido conto, apontando semelhanças de concepção da violência contra a mulher e diferenças no plano retórico das construções narrativas.  Ao introduzir a temática dos textos em estudo, a pesquisadora afirma que:

Nós, seres humanos, alcançamos a existência social em e pelas relações de saber-poder que estabelecemos com os outros em um contexto social dado, relações que nos assinalam possibilidades e restrições. Talvez as relações mais importantes sejam as que nos outorgam o reconhecimento, a confirmação de que somos sujeitos válidos, com direito e autoridade para participar da vida e do mundo por meio de nossas ações e nossas palavras. Por isto, a maior violência simbólica que se pode exercer sobre um ser humano é negar-lhe esse reconhecimento.

É pela ausência deste reconhecimento e pela negação deste direito à participação da vida e do mundo que a protagonista do conto e do filme, Gertrudis, sofre a violência familiar e foge com o fotógrafo, abandonando o sistema patriarcal em que a linguagem do amo que fala do outro e o substitui por um diálogo com o outro. Segundo a leitura de Cecilia Luque:

Tanto o conto quanto o filme mostram como, nas sociedades rurais latino-americanas do início do século XX, sociedades só incipientemente burguesas e ainda profundamente patriarcais, uma mulher “feia” via drasticamente reduzidas as suas possibilidades de encontrar um lugar produtivo legítimo na sociedade e corria o risco de tornar-se um “fardo” que sua família não poderia “tirar de cima”. (LUQUE)

Esta condição de subalternidade e a desvalorização social feminina é apresentada no conto e no filme por meio do coloquialismo e da condição de precariedade, dado pelo fato de serem declaradas “feias” negando-lhes, portanto, o reconhecimento como sujeito social válido.  
A proposta do ensaio é demonstrar que “Gorodischer e Menis exploraram diferentes aspectos deste particular processo de subjetivação feminina, e o fizeram com retóricas diferentes”. (LUQUE, p. ) Fica claro, portanto, que é pela linguagem que os espaços de poder são demarcados, tornando o conto e também o filme narrativas de reivindicação, de questionamento e de reflexão a respeito do reconhecimento e da valorização da mulher na sociedade contemporânea. Embora as narrativas em estudo simbolizem “as formas com as quais as tecnologias patriarcais do eu constituíram a identidade das mulheres e as definiram como sujeitos subalternos” (LUQUE), a pesquisadora deixa claro que enquanto o conto de Gorodischer refletia as preocupações das feministas dos anos 60 e 70, Menis faz uma reinterpretação no filme, convergindo para as preocupações feministas a partir dos anos 90: “a necessidade de ressignificar o corpo da mulher que tem sido historicamente colonizado, alienado e definido pelo olhar patriarcal; ressignificar a libertação do desejo feminino como condição de subjetivação das mulheres”. (LUQUE.)
André Queirós, em “A palavra definitiva – Escritura e militância na literatura argentina (Conti, Urondo, Walsh)”, não fará contraposição de gêneros, mas nos coloca também diante de produções literárias que denunciam, marcam uma posição de poder em contraponto ao discurso da violência do Estado de Exceção, imposto na Argentina da década de 1970. O olhar do revolucionário que grita e age contra um discurso de poder ditatorial, marcado pela violência e pelo assassinato, é apresentado e como relato por uma voz que em muitos momentos faz saltar a linguagem do ensaio para o da ficção e não raro elas se coadunam. Essa é a voz de André Queirós que nos toma de assalto e nos prende em busca da palavra definitiva dos autores argentinos que foram também atores de seu tempo.
Haroldo Conti, Francisco “Paco” Urondo e Rodolfo Walsh denunciaram e enfrentaram, por meio da linguagem, a violência do Estado que, de acordo com Queirós mediava as relações entre o capital e as massas, favorecendo o primeiro. André Queirós faz um percurso histórico, localizando os autores e contextualizando suas produções e marcando um movimento discursivo e temporal. A feliz ideia retomada do livro de Walsh, Operacion massacre, “três fuzilados que vivem”, cabe perfeitamente como mote também para o ensaio de Queirós, pois os três autores permaneceram pela linguagem. Retrataram, em cartas, poemas, romances e entrevistas, o contexto político marcado pela violência do regime ditatorial no país.
É através dos movimentos da linguagem, portanto, que Cecilia Luque, assim como Queirós, nos fazem refletir e compreender as relações entre linguagem e poder.  No plano das discussões sobre identidades sociais e suas relações com a linguagem, podemos afirmar que ela pode ser definidora da precariedade do sujeito, do mesmo modo que pode ser elemento propiciador da sua permanência enquanto discurso de poder.
Na terceira parte deste volume, o debate se dá especificamente no campo das relações entre a literatura e outras linguagens. O passeio proposto pelo texto do professor e pesquisador Evanir Pavloski nos faz caminhar entre linguagens que antecedem a escrita, como as pinturas rupestres, e suas variações nos modos de leitura do mundo. Segundo Pavloski,

A paulatina evolução dos signos gravados nas paredes das cavernas possibilitou a deflagração do terceiro processo que, juntamente com o perceptivo e o cognitivo formam a noção de representação aqui enunciada: o fabulativo. Em outros termos, as figurações pictóricas assumem contornos de relato e a disposição dos desenhos perde a sua aleatoriedade. Os desenhos de corpos, animais e espaços passam a estabelecer relações de complementaridade e a formar um quadro comunicativo maior. A narratividade, substância fundamental da literatura, surge em estado bruto.

As imagens, portanto, constituem-se como narrativas e passarão, mais tarde a integrar as obras literárias não apenas para promover a visualização do que era exposto pelas palavras, mas também “como um subtexto que ora as complementava, ora as suplementava”. Do encontro dessas esferas de arte (cinema, literatura, pintura, fotografia) e de percepções humanas (neurofisiológicos, cognitivos e simbólicos) surge, muitas vezes, segundo Pavloski, o que ele chamaria de “conflito de imaginários”, ou seja, “construções imagéticas diferentes que ao serem transpostas para outra linguagem desnudam as particularidades das leituras realizadas”. A revolução tecnológica que vivemos hoje propicia uma multiplicidade da produção, da circulação cada vez mais rápida e global, e da recepção de textos marcados pelo hibridismo. Blogs, Chats, e-mails, fotologs, e-books são apenas alguns destes canais de caráter gráficos, imagéticos, orais, sonoros que se proliferam e são incorporados ao cotidiano de pessoas com tempo e recursos. Essa revolução tecnológica trará, como afirma Pavloski, consequências para o mercado editorial dos textos literários e para a criação de novos gêneros de produção, como a literatura “ergodica”.  É preciso ressaltar, portanto, que o surgimento da escrita não eliminou a oralidade e do mesmo modo a literatura permanecerá, não obstante o surgimento do cinema, da fotografia e tantas outras linguagens.
Paulo Ramos, seguindo a mesma linha teórica de Pavloski, defende a especificidade de cada campo (literatura, teatro, quadrinhos), cada um com uma linguagem autônoma e própria, e aponta para “inegáveis diálogos” entre esses campos –  como entre quadrinhos e literatura. No artigo “Literatura e quadrinhos: o cisne e o patinho feio”, Ramos apresenta uma discussão por meio do caminho que conduz as histórias em quadrinhos para a transformação de patinho feio a cisne, no processo de aceitação e reconhecimento do caráter e do potencial artístico do gênero. Desde a marginalização das histórias em quadrinhos no início do século XX, no Brasil, até a sua ascensão e reconhecimento como um gênero artístico válido e de alto valor cultural e comercial, estende-se um longo período e vários equívocos destacados pelo autor. O pesquisador apresenta, então, quatro fatores que contribuíram e têm contribuído para este reconhecimento: 1) a presença de quadrinhos no ensino; 2) as adaptações literárias; 3) o uso do formato livro, que aproxima os quadrinhos do texto literário; e 4) o aumento do número de pesquisas sobre quadrinhos nos programas de literatura. A busca por novos diálogos entre a literatura e os quadrinhos, no sentido de uma aproximação dos gêneros, é o que propõe Paulo Ramos. No movimento das linguagens, sombras e luzes se entrelaçam e fazem surgir novos caminhos.
Por fim, o capítulo da professora-pesquisadora Elaine do Vale Ferreira Borges, subsidiado pela área de ensino de línguas adicionais, é a quarta e última parte na organização deste livro. Intitulado “Language teaching: a look with the eyes of complexity”, o capítulo discute novas perspectivas que surgem nos Estudos da Linguagem a partir do advento do paradigma da complexidade no campo da Linguística Aplicada. Para tanto, a autora apresenta seis exemplos de sistemas adaptativos complexos (SAC) que emergiram contemporaneamente na área, sendo dois de sua própria autoria e um terceiro em coautoria. Esses sistemas são: linguagem como SAC, aquisição de segunda língua como SAC, identidade como SAC, abordagem de ensino e de aprendizagem de línguas como SAC, planejamento de ensino de línguas como SAC e a formação de professor de línguas como SAC. 
Borges explica que, essencialmente, um SAC pode ser entendido como qualquer fenômeno científico que emirja da interação de seus vários elementos (sem controle centralizado), sendo dinâmico, aberto, vivo, não-linear, auto-organizável, adaptável, imprevisível e altamente sensível às condições iniciais; apresentando um comportamento particular que pode ser reconhecido como um atrator caótico. A autora enfatiza, ainda, que todo SAC possui sistemas e subsistemas aninhados em sua constituição e que, no todo, se manifesta na forma de um fractal geométrico, sendo esse o formato de algumas das figuras dos SAC apresentas por ela no capítulo.
Para subsidiar a discussão, inicialmente, Borges destaca a importância das metáforas conceituais (Lakoff & Johnson, 2001) e científicas (Boyd, 1993) na concepção de sistemas caóticos na LA, já que muita da terminologia utilizada é proveniente das ciências exatas e biológicas. Nesse contexto,as discussões empreendidas pela autora também são fundamentadas nas visões wittgeinsteiiana de jogos de linguagem e kuhniana de paradigma nas ciências sociais. Ao final, a autora argumenta sobre a visão que possui da situação do pós-método no âmbito atual da complexidade e chama a atenção para a necessidade de um olhar complexo dos linguistas aplicados para os fenômenos da linguagem a fim de se compreender o que ela denomina de pedagogia complexa de línguas adicionais.

Sendo um evento que responde aos interesses científicos e educacionais de profissionais formados e em formação, nas áreas envolvidas, o CIEL se configura como um espaço de reflexão das questões mais prementes do universo que se constrói a partir dos desafios de formar professores e pesquisadores. Por considerar que é dever da universidade pública promover a pluralidade no ensino, na pesquisa e na extensão, o CIEL procura, da maneira mais democrática possível, colocar-se à disposição de diferentes concepções de linguagem. Pretende-se, neste sentido, manter na pauta as inquietações daqueles que não apenas escolheram o magistério para a ele dedicar suas energias profissionais, mas que também têm o privilégio e a responsabilidade de contribuir substantivamente para a formação de novos professores. O que se espera é que os artigos e ensaios publicados neste livro contribuam para o alcance desses objetivos, tão caros aos organizadores da oitava edição do CIEL (de Estudos de Linguagem) e da primeira edição internacional do CIEL (I CIEL – Congresso Internacional de Estudos de Linguagem).

domingo, 10 de setembro de 2017

Vitorino Nemésio: o Rio de Janeiro como Medium-De-Reflexão

Eunice de Morais

O olhar é a última gota do ser humano
(W. Benjamin)

A crítica de Walter Benjamin, fundamentalmente, revela-se como atos de reflexão articulados em cinco níveis. No primeiro nível está a autorreflexividade da crítica. Neste nível observamos que Benjamim está sempre a refletir sobre sua própria atividade de crítico, sobre o local e o papel da crítica na sociedade. Em segundo lugar, faz-se uma leitura detalhada e uma reflexão sobre a obra criticada, a qual será sempre analisada, segundo Novalis, a partir de seu próprio ideal e não de um modelo a-histórico. Em terceiro lugar, verificamos a reflexão sobre a história da arte e da literatura, na qual Benjamin, partícipe de uma forte tradição alemã, desenvolveu o tema da teoria dos gêneros literários, como no livro Sobre o barroco e no seu ensaio sobre o narrador, de 1936. Em quarto lugar, elabora-se uma reflexão crítica sobre a sociedade. Observamos que a crítica foi praticada por Benjamin, a partir do seu presente e voltada para si, sem a ilusão positivista de se poder penetrar no passado “tal como ele aconteceu”. Por último, o quinto nível reflexivo articula todos os níveis anteriores. A reflexão sobre a teoria da história feita por Benjamin critica os modelos da evolução histórica, tanto liberais como marxistas, que acreditavam em um avanço constante e positivo do devir da história. Benjamin opôs a este modelo uma imagem da história como acúmulo de catástrofes (SELIGMANN SILVA, 2016). Queremos observar, a partir desse cinco níveis do ato reflexivo na crítica benjaminiana, que cada um deles está sempre a voltar-se para a identidade do crítico refletida no texto, para a autorreflexividade. Assim, a ideia de espelhamento do eu em todo ato de crítica ou de produção artística atravessa toda a proposta teórica de Benjamin. É assim que vemos em Rua de mão única e Imagens de pensamento o reflexo das metrópoles, um texto-cidade que se constrói a partir do presente e do sujeito crítico transeunte; a cidade é o meio especular através do qual são refletidas as imagens (social, histórica, crítica e literária) que cada uma das metrópoles representa ou significa para o eu que a observa.
Rua de mão única (1928/2013), de Walter Benjamin, compõe-se de um conjunto de aforismos através dos quais o autor pretende “Captar a atualidade como o reverso do eterno na história e tirar uma impressão dessa face escondida da medalha. De resto o livro deve muito a Paris, é uma primeira tentativa de escrever minha relação com esta cidade.” (BENJAMIN, p.123).
O olhar de Benjamin através da metrópole moderna, como palco de grandes transformações, se constitui em imagens de pensamento que não apenas retratam a cidade, mas a consideram como medium-de-reflexão[1]. Tanto em Rua de Mão única quanto em Imagens de pensamento, Benjamin provoca o leitor com reflexos da imagem e espaços da cidade que incidem, atravessam e transformam a si mesmo, levando-o a uma reflexão sobre o modo como o habitante da metrópole se relaciona com o texto-cidade. Weimar, Moscou, Paris, Marselha, Nápoles são formas a serem apreendidas e subvertidas, são medium-de-reflexão e portanto refletem, tal qual espelho, as tensões da modernidade. O transeunte diante dos espaços e informações citadinas reagiria tal como Benjamin em “Mercadoria a granel: expedição e embalagem”:

De manhã cedo, atravessava Marselha de automóvel para apanhar o trem, e à medida que passavam por mim lugares conhecidos e outros desconhecidos, ou outros que só vagamente me lembrava, a cidade, nas minhas mãos, transformava-se num livro ao qual ainda deitava uma rápida vista de olhos antes de ele desaparecer da minha vista no caixote do sótão, sabe Deus por quanto tempo. (BENJAMIN, p. 52).

Em Infância berlinense, o transeunte benjaminiano de Marselha tem a cidade nas mãos como um livro que desaparece no caixote do sótão, pelo tempo indeterminado da memória. Ele afirma não haver nada de especial em “não nos orientarmos numa cidade. Mas perdermo-nos numa cidade, como nos perdemos numa floresta, é coisa que se precisa aprender” (BENJAMIN, p.78). Aprender a perder-se na floresta significa retornar ao passado primordial e primitivo da urbe e do homem. Para Benjamin, é preciso “escavar e recordar” para reconhecermo-nos no presente. A memória não é instrumento, mas meio para exploração do passado, “é o meio através do qual chegamos ao vivido, do mesmo modo que a terra é o meio no qual estão soterradas as cidades antigas. Quem procura aproximar-se do seu próprio passado tem de se comportar como um homem que escava” (BENJAMIN, p. 101). O termo medium-de-reflexão, utilizado por W. Benjamin pretende, portanto, apontar o potencial da obra de arte na elaboração do conhecimento crítico e a metrópole moderna é para ele o painel luminoso em que se fundam e espelham as reflexões do leitor. Nesta proposta de trabalho recuperamos a expressão com o intuito de observar esse potencial crítico e principalmente intimista presente, na poesia de Vitorino Nemésio, na construção de imagens da cidade do Rio de Janeiro.
Entendemos que há uma aproximação possível entre o olhar sobre a grande cidade contemporânea, que marca a forma e o estilo da escrita Benjaminiana da história, e o olhar poético de Vitorino Nemésio sobre a cidade do Rio de Janeiro, no sentido de que as obras de ambos revelam a cidade como espaço mediador e veículo informativo das trans-formações históricas e culturais. O Rio de Janeiro nemesiano é, como veremos, reflexo dos sentimentos de brasilidade revelada e exaltada, associado ao saudosismo e ao pertencimento açoriano do poeta. (...)
     



[1]  Termo usado pelos Românticos de Iéna para designar o potencial da obra de arte para proporcionar o conhecimento crítico. TEXTO COMPLETO SERÁ PUBLICADO NA REVISTA "CONVERGÊNCIA LUSÍADA" - Real Gabinete Português de Leitura.