A bilbioteca é a história viva do Livro e seus leitores

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Biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura - RJ

domingo, 30 de setembro de 2007

Passado e Memória em Dias e Dias

Pensar a construção narrativa dos romances de Ana Miranda com um olho no passado é meio caminho para uma viagem agradável. a escritora utiliza-se com muita precisão de investigações relativas ao passado sem necessariamente mergulhar na historiografia tradicional. A desculpa para se apresentar determinada trama passa dos limites da construção narrativa para uma dimensão interdiscursiva que projeta o leitor para a própria construção da trama.
Em Dias e Dias, Ana Miranda nos leva para um espaço privilegiado, uma espécie de antesala em que a urdudura republicana parece instalar suas garras precipitando a decadência da monarquia nacional. Por trás do amor de Feliciana toda uma dedicação que vai além do compromisso das missivas e de revelações que adocicam o caminho literário pavimentado pelo romantismo heróico de um povo carente de lideranças populares...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Considerações sobre o romance Boca do Inferno

(Este texto é parte integrante da dissertação de mestrado, defendida em 2003, na UFPR, por Eunice de Morais.)

A personagem Gregório de Matos é importante no romance Boca do Inferno(1989), de Ana Miranda, enquanto participante de um momento histórico e enquanto figura literária. O poeta não é causa nem conseqüência do momento histórico e literário no Brasil, mas é parte dele, age e reage de acordo com crenças e costumes da época e de sua classe social, porém com ideais que o diferenciam entre muitos artistas do final do século XVII. Isto fica claro quando o narrador o descreve:

"O mundo sempre estivera cheio de poetas como ele: Afonso Eanes de Coton (...); O galego Pero da Ponte (...); o clérigo Martim Moxa (...); o fidalgo Tomás de Noronha (...); Francisco Manuel de Melo (...). Gregório de Matos não estava entre os piores. Era até compreensível que ele fosse assim. Os poeta como ele tinham sido amados pelo povo, não apenas pelo que escreviam, mas pelos pecados que cometiam. Com a aura divina da poesia, não haviam deixado de ser homens comuns." (p. 205).


Narrar a vida de Gregório de Matos a partir do crime do alcaide Francisco Teles traz ao romance duas portas de entrada: a maturidade do poeta tanto como indivíduo social quanto como artista e as transformações e perseguições políticas em decorrência do crime. Assim, o crime é um momento decisivo historicamente para a vida do poeta ficcionalizado e para as mudanças políticas no país. A importância do romance, no entanto está nos questionamentos sociais e políticos que, apesar de antigos, não envelhecem neste país: os cânones literários e históricos continuam sendo escolhidos pelos críticos da literatura e pelos escritores da história, a política continua corrupta, os brasileiros dominados por elementos culturais externos; por outro lado há a derrocada da idéia de sermos um povo pacífico desde a origem.

A representação do período histórico narrado (04 de junho de 1683 até, presumivelmente, junho de 1684) se dá muito mais pelo espírito moralizador imposto pelos colonizadores europeus do que pelas descrições figurativas da geografia ou dos fatos históricos paralelos ao fato narrado. A descrição da cidade da Bahia e dos personagens se dá mais fortemente pelo caráter moral (disputa entre o bem e o mal) do que por descrições cenográficas, ou seja, a reprodução mimética serve como apoio para a apresentação dos ideais políticos, sociais, religiosos e literários que se concentram na figura de Gregório de Matos, “Boca do Inferno não era ele, era a cidade. Era a colônia”. (p.232)

"(...) Mas a colônia andava atrelada a Portugal. As moedas e as riquezas não ficavam no Brasil. A economia marchava conforme as circunstâncias que viessem a atender às necessidades do regime fazendário da metrópole (...) Os valores das mercadorias na colônia eram miseráveis. Em Portugal altíssimos. (...)."
"Os brasileiros são bestas e estarão a trabalhar toda a vida por manter maganos de Portugal." (p. 293).

Assim, o que paira sobre a obra é exatamente a disputa entre o ser e o dever ser dos indivíduos que viveram ao lado do poeta. O ser, em Boca do Inferno, é o ser barroco por excelência.

"De noite, aqueles mesmos freqüentadores de missas andavam em direção aos calundus e feitiços. (...). Quando se confessavam na igreja, escondiam isso dos padres apesar de não ser raro ver-se um sacerdote em tais cerimônias." (p.14).

Este parece ser o grande mérito da obra: fazer a história de Gregório de Matos ao estilo de sua época e de sua obra poética sem se opor às tendências romanescas do presente. O mesmo poeta que critica a submissão dos brasileiros em relação a Portugal, não quer abandonar a Bahia “se eu tiver de morrer, que seja aqui mesmo.” (p.232).

A vida de Gregório de Matos, no romance, tem como centro a cidade da Bahia, que é uma espécie de entidade moral que surge como espaço histórico e ganha personalidade pelas descrições satíricas do poeta. A cidade é incorporadora das decepções e protestos de Gregório de Matos em relação ao contexto político e social da época. O fato principal é o crime do Alcaide Francisco Teles, de modo que o protagonista, centro das narrativas biográficas históricas, é no romance um dos centros da narrativa.

"Gregório de Matos estava repleto de dúvidas. Ser formado em cânones e habilitado de genere para a leitura de bacharel não o satisfazia. Jovem, entregara-se à poesia, cheio de sonhos clássicos; porém, com o tempo, passara a escrever apenas por um sentimento compulsivo. (...) As poesias líricas que escrevia lhe pareciam muito abaixo das de Gongora y Argote. E inúteis."(p. 204).

Gregório de Matos aparece na obra como escritor e advogado rebelde e seus pensamentos servem, muitas vezes, de assunto para o narrador que quase sempre adota o estilo cruel do poeta em ironias contra a cidade, as pessoas influentes, as mulheres, os escravos, etc.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Ana Miranda e o romace histórico

Boa parte dos romances da escritora Ana Miranda revela o crescente interesse pela temática histórica na ficção contemporânea. Além de Boca do Inferno (1989), nos romances O retrato do rei (1991), A última quimera (1995), Desmundo (1996), Amrik (1997), Clarice (1999) e Dias e Dias (2002) a autora elabora o tema histórico, fazendo-o ocupar o centro da narrativa. Este tipo de romance vem recebendo denominações diversas, como a da pesquisadora canadense Linda Hutcheon – “metaficção historiográfica” – e a de Seymour Menton - “nueva novela histórica”.
No entanto, Ana Miranda é uma ficcionista e traz, em sua bibliografia, romances puramente ficcionais (ou seja, não fazem da mimese do discurso histórico o centro da narrativa) como, por exemplo, Sem pecado (1993), e Caderno de sonhos (2000). Além destas, há ainda um livro que é uma coletânea de poemas freiráticos, e, portanto, resultado de uma pesquisa literária, mais do que a ficcionalização desta pesquisa. Estamos falando de Que seja em segredo (1998). Em todas as obras da autora, apesar de variarem em sua qualidade literária, é possível perceber um minucioso trabalho sobre a figura feminina e o seu “poder” sexual e intuitivo sobre a figura masculina.
Nota-se também que o histórico em suas obras é quase sempre narrado através do modo biográfico. Isto se dá mais claramente em Boca do Inferno e em A última quimera onde justamente os biografados são cânones da literatura brasileira (Gregório de Matos e Augusto dos Anjos), trazendo para o interior da obra uma discussão que se origina no posicionamento histórico dos poetas, passa por suas individualidades (sua história individual) e alcança a crítica literária canonizadora. A mais recente publicação romanesca de Ana Miranda, Dias e Dias (Companhia das Letras, 243p.), segue esta mesma trilha, narrando os dias de Gonçalves Dias, através do olhar romântico de Feliciana.
Inspirado na poesia “Dias após dias” de Rubem Fonseca, o romance constrói a vida do poeta romântico, revelando detalhes pessoais. O conhecimento destes detalhes, por Feliciana, uma personagem inventada, se dá através das cartas do poeta enviadas a seu grande amigo Alexandre Teófilo de Carvalho Leal. Estas cartas, freqüentemente citadas no romance, criam uma ilusão de realidade, fazem o leitor esquecer-se da ficcionalidade de Feliciana e de outros personagens que têm existência apenas no romance, colocando-os no mesmo plano de existência de Alexandre Teófilo e Gonçalves Dias. Este é um romance que se diferencia do Boca do Inferno pelo retorno nacionalista que faz, pelo maior destaque dado ao discurso biográfico e pelo amadurecimento criativo. As notas da autora, ao final do romance, são menos referências bibliográficas do que indicações que auxiliariam o leitor no reconhecimento do caráter documental de seu texto. Por outro lado, estas indicações mostram um caminho para a reescrita ou, pelo menos, para a reconstrução do romance pelo leitor e, para que ele não considere o texto uma colagem irresponsável dos textos de Gonçalves Dias, a autora avisa que “poesias e cartas de Gonçalves Dias foram incorporadas à expressão da narradora. Os fragmentos não estão destacados”.[1] Vemos, assim, que talvez não tenha sido apenas o grande sucesso do seu romance de 1989, que vendeu 50.000 exemplares, o motivo pelo qual Ana Miranda investe nesta nova e mesma produção, mas também há nesta realização uma busca pela representação de um nacionalismo re-emergente. Além disso, Dias e Dias, assim como A última quimera, não pode deixar de ser considerada uma grande realização apenas por fazer parte de um mesmo tipo de construção inaugurada pelo Boca do Inferno. Ao contrário, pede uma análise mais profunda, considerando o percurso produtivo da autora.
Estas obras ilustram os romancistas da atualidade que ao tratarem da história, são ficcionistas e historiadores que entram pelas fendas da história, aproveitando-se da liberdade do mundo ficcional para reescreverem fatos canonizados pela história.
[1] MIRANDA, Ana. Dias e Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 243.