Os
outros passam, tocam-se, separam-se,
Exatamente
como dantes. Mas
Aonde
e como? Aonde e como? Quando?
Em
que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a
que horas do dia ou da noite, não sei.
Apenas
sei que as circunstâncias mudam
e
que os lugares acabam. E que a gente
não
volta ou não repete, e sem razão, o que
só
por acaso era a razão dos outros.
Se
do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita
de raiva e do vazio gélido,
não
é saudade, não. Mas muito apenas
o
horror de não saber como se sabe agora
o
mesmo que aprendi. E a solidão
de
tudo ser igual doutra maneira.
E
o medo de que a vida seja isto:
um
hábito quebrado que se não resta,
senão
noutros lugares que não conheço.
(SENA,
“Noutros lugares”, 1967)
Dois aspectos da
narrativa de Sinais de Fogo me interessam neste momento: seu traço
autoficcional e a possibilidade de leitura do romance como ficção histórica. O
primeiro será observado a partir de um recorte temático que geralmente tem sido
incluído nos estudos da composição do romance que buscam associá-lo a um tipo
de produção autobiográfica. Minha preocupação aqui será demonstrar que Jorge é
uma ficcionalização do poeta em formação Jorge de Sena, não apenas pela coincidência
dos nomes, mas principalmente pelo modo como a poesia surge, nasce e se
desenvolve no personagem. A ação narrativa e as reflexões do personagem sobre
si mesmo e sobre a composição poética confirmam, em diversos momentos, a perspectiva
poética de Jorge de Sena. O segundo aspecto diz respeito à grande importância de
um episódio histórico, a Revolução espanhola de 1936, que contribui para o
processo de transformação individual de Jorge assim como para as transformações
coletivas e políticas de Portugal. A centralidade do episódio na narrativa retira-o
de uma suposta condição de mero pano de fundo, dotando-o de uma força
integradora e gerenciadora da vida das personagens que compões o círculo de
relações do protagonista. Segundo Mécia de Sena, Sinais de fogo:
Espelhava o ponto de viragem no
panorama político e social europeu: a Guerra Civil de Espanha. Este
acontecimento é fulcral no romance, e, tornando-o instrumental no despertar do
protagonista para a realidade política e social, para o amor e até para o acto
da criação poética, a acção não podia abranger mais do que esse preciso tempo
de eclosão.[1]
É a Revolução ou os
sinais dela em Figueira que encaminham Jorge para o amadurecimento emocional e existencial;
é ela que o faz compor uma ponte que o leva de si para o outro e para a
coletividade; é ela que o torna consciente sobre as consequências de suas
escolhas; por fim, é a revolução no mundo exterior que faz nascer, no tumulto
das indagações interiores, como de um salto, a sua voz poética.
Entrelaçam-se, pois, na
narrativa romanesca, a ficcionalização da
formação do poeta Jorge de Sena e a ficcionalização do episódio histórico,
proporcionando ao leitor um encontro singular, para o momento de produção da
narrativa (fins de 1964), da voz poética que fala de um eu profundo em
descoberta e da voz prosaica que narra a Guerra Civil da Espanha sob a
perspectiva dos portugueses da Figueira que não apenas acolhem revolucionários
como embarcam para a luta na Espanha. Mécia de Sena alerta para o rigor com que
Jorge de Sena trabalhava o tema histórico, sempre precedido de minuciosa
investigação dos fatos.
Para este romance, os dados foram, pois,
buscados com o máximo rigor e, para informações que não conseguia, várias vezes
lhe valeu Luís Amaro com a sua meticulosidade, eficiência e paciente poder de
consulta. [2]
O rigor histórico no
processo de composição da narrativa, no entanto, não compromete a sua
realização literária. Hábil e intensamente poético na construção da prosa,
Jorge de Sena traduz, pela perspectiva presencial de Jorge, os momentos
históricos, como o estalar da Guerra Civil, que terminaria como os primeiros
sinais da ação impiedosa do regime ditatorial instalado em Portugal. Retratada
nas atitudes das personagens Jorge e Mercedes diante do corpo do amigo e do
irmão, o Zé Ramos, encontrado na praia, aproximadamente um mês antes da “Revolta
dos Marinheiros”[3]. José Ramos é o articulador principal da
participação do grupo que possivelmente participa da expedição do Afonso
Albuquerque à Espanha após a eclosão da Guerra e que foi interceptado e os
tripulantes punidos pelo governo. Por isso Mercedes, ao reconhecer seu cadáver
na praia, considera a possibilidade de o mesmo ter se matado para não delatar
aos outros “ – Não foi desastre, tenho a certeza que não foi. Ele matou-se, ou
deixou-se morrer. Por nossa causa.”[4] As revelações íntimas de
Mercedes a respeito do irmão morto contrastam com a visão realista de Jorge,
que se espanta com a frieza da conversa de ambos diante do cadáver de José
Ramos, mas ao mesmo tempo revela o ideal nazista e a força política do irmão
quando diz: - Não fazes ideia do empenho que pôs em organizar esta viagem,
contra mesmo a vontade do partido. Ele queria uma coisa retumbante que
comprometesse toda a gente de uma vez para sempre. Mas, se o Almeida não ia e
tu ficavas, ele não suprimia um, nem evitava o outro.” [5] Em seguida, casal se
despede sem anunciar o reconhecimento do corpo trazido àquela praia, naquele
exato momento em que o casal por ali transitava.
- E agora ele não está vivo. Não
posso tornar a vê-lo. Aquilo já não é ele
Fomos andando, e eu disse: - Estás enganada.
Aquilo é ele.
[...] – Sim, é ele. Mas ele não se
vingou de nós. Não foi ele quem trouxe o cadáver para ali. Não foi ele quem nos
levou à praia para que o encontrássemos. Ele só se vingou dele mesmo. E tudo o
mais aconteceu por acaso – e lembrei-me de o ver morto em meu sonho.
- O acaso, dizes tu... O acaso é a
coisa mais horrível que há.
- [...] – E agora? O que vamos
fazer?
- Nada. Ele morreu. Apareceu na
praia. Nós não o vimos.
- Não o vimos?
- Não. Tu vais para a pensão,
entras no teu quarto, deitas-te a dormir, dormes, e pronto. Não faças o jogo do
acaso. Ele que o faça sozinho. [6]
A morte de Ramos,
desfecho trágico de suas articulações políticas, trará grande transformação
interior à Jorge assim como a todo o movimento comunista para derrubar o
governo ditatorial franquista da Espanha (instaurado em julho de 1936) quanto o
salazarista de Portugal (1933). A censura assim como a utilização dos jornais
como instrumentos de disseminação do medo e contenção de ânimos para qualquer
movimento contrário ao governo é evidenciada na narrativa pela descrição das
notícias referentes à fuga de “comunistas” espanhóis. Cito:
O jornal era de Lisboa e o da
véspera. Cheio de grandes parangonas sobre vitórias ‘nacionalistas” na Espanha,
e vários retratos de heróis e de supostas vítimas ilustres do terror
“vermelho”, tinha uma notícia do Porto, muito pequena, dizendo que, das prisões
da Polícia, tinham fugido, em condições que faziam crer numa grande conspiração
comunista, alguns presos de serem agentes, em Portugal, do Komintern.[7]
Os dois foragidos
acusados de pertencerem à Komintern pelo governo, tratava-se dos dois espanhóis
envolvidos no evento presenciado por Jorge ao chegar em Figueira da Foz e que
em seguida serão abrigados por seu tio. A dúvida sobre a veracidade da notícia
ou sobre a intenção do governo ao fabricá-la é discutida pelos personagens e a
conclusão a que chegam é surpreendente, pois a notícia só foi publicada porque
a censura deixou, ou porque mandaram publicar e o efeito da notícia tanto pode
ser caçá-los, para fazê-los confessar e armar um escândalo político, ou
deixa-los chegar lá (Espanha) e provam a interferência que procuram demonstrar.
De qualquer forma, concluem, quem montou a aventura toda consegue o efeito
desejado. E “-Quem a montou foi o Ramos, disso não tenho dúvida. Mas quem o
montou a ele é que eu gostava de saber. Mas isso, ainda quando alguém o diga, é
o que nunca se sabe ao certo. A política é isso mesmo.” [8] Mais uma vez temos o nome
do José Ramos associado a uma organização maior que interfere tanto na vida
cotidiana dos personagens próximos a Jorge e a ele mesmo quanto na participação
política e social destes.
Jorge sintetiza esse
atravessamento das sensações e da atmosfera social diante da opressão do
governo. O episódio histórico narrado através da notícia de jornal lida pela
mãe à mesa do café da manhã funciona como mecanismo de deflagração do
sentimento de solidão e da sensação de impotência e de perda do domínio da
vida, manipulada pelo governo. Neste
sentido, a ficcionalização da matéria histórica é essencial para que a
narrativa descortine e revele o amadurecimento político e social do
protagonista que, ao chegar em Figueira da Foz no momento da eclosão da Guerra
civil da Espanha, observa as pessoas e a revolução como outros que não possuem
qualquer relação com o que ele é. São seres diversos e até incompatíveis com a
sua visão de mundo, incompreensíveis.
Eu não entendia nada do que tinha
acontecido [...]. As pessoas que veraneavam tão longe não podiam ser, por
certo, revolucionários. Pessoas dessas, era, sem dúvida, como nós: e, se não
tinham quarto escuro, nem precisavam dele, podiam muito bem esperar
sossegadamente, ao sol da Figueira e tomando banho de mar, ou sentados nos
cafés, ou à volta das mesas de jogo do cassino, que a revolução acabasse. [1]
Na comparação dos dois
momentos da narrativa, aponto para a transformação do protagonista e para a
ampliação e construção de sua visão de mundo, tendo por fundamento o seu tempo
e espaço histórico individual e histórico coletivo. É o modo pelo qual o
protagonista percebe e reflete sobre esses tempos e espaços, que provocam nele
uma emancipação de si através da poesia. De modo que a poesia será, não uma
característica do ser, mas o próprio ser, por isso revela-se em aparições. É
parte e essência da sua existência.
A ficcionalização do
autor na obra pode ser identificada a princípio pela homonímia
autor-narrador-personagem. No entanto, não me parece ser esse o critério mais
apropriado para confirmar o caráter autoficcional de um romance, principalmente
quando o personagem Jorge não se apresenta em nenhum momento como Jorge de Sena.
A relação entre o autor e o personagem que o refigura deve ser tecida de outros
elementos que torne possível ao leitor (modelo) reconhecer aproximações,
verossimilhanças biográficas entre ambos. Estou a dizer que pode haver sombras,
incertezas, distanciamentos e mesmo desconstruções do eu e ainda assim
reconhecermos a refiguração do autor por ele mesmo, na narrativa. Como afirma
Doubrovski, criador do termo autoficção, “reinventamos nossa vida quando a
rememoramos” [2].
Em Sinais de fogo é possível reconhecer dados biográficos de Jorge de
Sena implantados na configuração do narrador personagem, mas para além dos
dados que em geral são comprováveis pela trajetória cronotópica da vida do indivíduo,
do professor, do crítico literário e do escritor, há o caráter estético da sua
poesia e a própria visão poética que o narrador personagem vai aos poucos
revelando e tomando consciência do potencial criativo que possui (ou pelo qual
é possuído), formando assim, desde o embrião, o poeta que tornou-se Jorge de
Sena.
O primeiro momento em que
o Jorge é tomado de assalto pela palavra ou pela expressão poética ocorre
quando ele, já estando em Figueira da Foz, é interpelado por Macedo se já havia
pensado em como vivem os pescadores, a gente do campo e os operários. Jorge,
que sempre tivera boa situação financeira, revela ao leitor (mas não a Macedo)
que reconhece que “tudo me parecia errado no mundo, e naquele dia muito mais.
Ou o mundo era, todo ele, um erro muito grande”.[3] Apesar de já ter pensado
naquelas coisas, Jorge não pensava com os mesmos olhos húmidos e brilhantes de
Macedo. Demonstrando ainda certa imaturidade política e social em relação ao
outro, mas apontando para uma descoberta que tem início em sua chegada à
Figueira da Foz:
Quando cheguei à figueira, a
estação era um tumulto de espanhóis aos gritos, com sacos e malas, crianças
chorando, enhoras chamando umas pelas outras, homens que brandiam jornais, e
uma grande massa de gente comprimindo-se nas bilheteiras.
Eu não entendia nada do que
acontecia, e não compreendia como uma revolução – coisa que a minha família
passava, em tempos idos, no quarto escuro – podia obrigar as pessoas a uma
agitação daquelas e a quererem regressar precipitadamente. As revoluções eram
feitas por militares e por revolucionários, que se preparavam para isso, e
esmagadas pelos governos que as atacavam, sendo depois saudados por magotes de
povo à moda do Minho. [...] para mim uma revolução não era uma guerra. Era umas
pessoas e uns regimentos que vinham para a rua, ou uns quartéis que os da rua
queriam assaltar. [4]
A falta de consciência
política e a imaturidade de Jorge, neste momento da narrativa, entra em choque
com a realidade social imposta pela deflagração da Guerra Civil na Espanha. É a
partir desta visão e do encontro com os amigos que aos poucos se revelam
associados a um movimento revolucionário que o poeta surge.
Não me apetecia comer. Apetecia fugir.
Para onde e porquê? E, de repente, ouvi dentro da minha cabeça uma frase:
“sinais de fogo as almas se despedem, tranquilas e caladas, destas cinzas
frias”. Olhei em volta. De onde viera aquilo? Quem me dissera aquilo? Que
sentido tinha aquela frase? Tentei repeti-la para mim mesmo: Sinais de fogo...
Mas esquecera-me do resto. Com esforço, reconstituía a sequência: Sinais de
fogo os homens se despedem, exaustos e espantados, quando a noite da morte
desce fria sobre o mar. Não tinha sido aquilo. Não era aquilo. E que
significava? Seriam versos? Repeti mentalmente: “Sinais de cinza os homens se
despedem, lançando ao mar os barcos desta vida”. Novamente as palavras eram
outras, ou quase as mesmas mas diversamente. Tirei um papel do bolso, e
escrevi: Sinais de fogo os homens se despedem, lançando ao mar os barcos desta
vida”. [...] Era absurdo. Eu fazendo versos? Porquê? Amarrotei o papel e
deitei-o fora.[1]
[...]
[1] SENA, p. 67.
[2] DOUBROVSKI,
p. 123-124. In: NORONHA,
Jovita M. Gerheim (org.). Ensaios sobre autoficção. Belo Horizonte>
Editora UFMG, 2014.
[3] SENA, p.120
[4]
Idem, p. 67-68.
[1] SENA, Mécia de.
Introdução. In: SENA, Jorge de. Sinais de fogo. Porto> Edições Asa,
1997 (7ª edição)
[2] Ibidem, p, 21.
[3] A Revolta dos Marinheiros é
considerada pelo Partido Comunista Português um marco na luta contra o Fascismo.
A Revolta, segundo o site do PCP, eclodiu nos navios Bartolomeu Dias, Afonso de Albuquerque e
Dão, fundeados no Tejo, uma sublevação de marinheiros, em 08 de setembro de
1936. Na sua preparação tiveram papel determinante os comunistas e a
Organização Revolucionária da Armada (ORA), com intensa intervenção política,
num momento em que o fascismo procurava consolidar-se e a resistência
democrática ganhava ímpeto. Era objetivo dos revoltosos passar a barra com os
três navios e, uma vez ao largo, fazer ao Governo de Salazar, um ultimato, para
que fossem libertados e reintegrados 17 camaradas, punidos após uma expedição
do Afonso de Albuquerque a Espanha, em agosto, pouco depois de ali ter eclodido
a Guerra Civil.
[4]
SENA, p. 355.
[5]
Idem, p.355-356
[6]
Ibidem
[7]
Organização política fundada por Lenin após a Primeira Guerra Mundial. Trata-se
de um órgão Soviético de controle do movimento comunista internacional.
[8]
SENA, p. 365.
